
Fui ao centro resolver umas coisas ontem à tarde. Como é chato ter que resolver papelada. Queria voltar a ser criança e pedir meus pais que resolvessem. Essa coisa de ser adulta é chata demais. Mas enfim, mesma coisa de sempre. Cidade lotada. Milhões de carros e tudo o que tem em centros urbanos. Mas hoje, especificamente uma coisa me chamou atenção. Um rapaz, vinte e poucos anos, talvez a minha idade. Saia de um estúdio de tatuagem. Corpo bem definido, alto, cabelos lisos, um sorriso simpático. Estava sem camisa e ao se virar, um brilho cintilava em seu dorso. Havia um plástico pregado à sua pele, e por baixo de sua transparência via-se um desenho como a sombra de uma carpa. Grande, como que saltando para dentro da espinha dorsal do rapaz.
Fiquei pensando como é estranho marcar a pele de uma forma tão fixa. Aquele rapaz não sabe que rumo sua vida tomará nos próximos 10 anos e mesmo assim já tomou uma decisão que poderá lhe afetar. Mas pensando bem, tomamos decisões assim todos os dias.
Enfim, ao chegar em casa, fui dar uma olhada em minha leitura anual. Não sei se já comentei por aqui, mas uma vez ao ano leio ‘O Pequeno Principe’ (Antoine de Saint Exupéry). E nesse dia me deparei com dois trechos em especial. Um deles seria ‘Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós’ e o outro, o famoso ‘tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas’. Fazendo um paralelo entre ambos, acho que nos tornamos responsáveis justamente porque aquilo que cada pessoa deixa impregna na pele, na alma, como tatuagem porém mais interno. Algo eterno.
Cada pessoa, por mais que pareça insignificante nos acrescenta algo. Um sorriso, um aprendizado, um olhar, um bater de coração mais forte. Qualquer coisa. Um aperto de mãos. Tudo é marcante. Cada um deixa sua marca, e mesmo que inconsciente, nos lembramos de todas. E da mesma forma que o tatuador foi responsável pelo desenho que fez à pele daquele rapaz, somos responsáveis pelas marcas que deixamos por onde passamos. Ninguém está imune, nem de marcar e nem de ser marcado. Porém ainda há uma opção. Podemos escolher entre marcar uma linda tatuagem, que fará com que sorriam ao se deparar com nossa lembrança. Ou deixar uma cicatriz, que será motivo de lágrimas, ou lembrará um momento de dor. Todos nós somos tatuadores da alma aheia.
